Arquivo de setembro \29\UTC 2009

Polêmica

A aula era de Política e Organização da Educação Básica no Brasil. A professora pediu que os alunos se dividissem em seis grupos e propôs um exercício: entregou duas fotos para cada grupo discutir quais indicadores humanos (renda mensal, taxa de urbanização, escolaridade, taxa de fecundidade, entre muitos outros) poderiam ser aplicados de acordo com o que era mostrado nas imagens. A segunda parte do exercício era mostrar para a classe as fotos e comentar sobre os indicadores que o grupo identificou.

Um dos grupos recebeu duas fotos com crianças. Uma das fotos mostrava crianças trabalhando e a outra mostrava crianças num parquinho. Eis a segunda foto:

crianças

Depois de o grupo apontar os indicadores relacionados às fotos, a professora perguntou se o grupo achava que também era possível aplicar algum indicador relacionado à renda. E um aluno (branco) respondeu:

- Eu acho que não, professora, porque em nehuma das duas fotos tem crianças das classses A e B, por exemplo. Aparentemente, são todas de classes mais pobres.

Uma aluna (também branca), de outro grupo, comentou:

- As crianças da segunda foto estão brincando. Só porque elas são morenas não quer dizer que elas não sejam da classe A e B. Não dá pra afirmar isso. Isso é preconceito!

Pronto, a polêmica foi criada. Vários alunos se manifestaram – inclusive eu – defendendo um ou outro ponto. O aluno defendia seu ponto de vista:

- A foto é de um lugar fechado. Provavelmente uma creche ou orfanato. Não se trata de um playground de um condomínio fechado ou de uma praça, por exemplo. E eu acho que o fato de as crianças serem morenas também é um indício de que elas sejam de classes mais pobres, sim. A professora acabou de falar sobre o sistema de cotas nas universidades. É comprovado que, no Brasil, não dá pra dissociar a questão financeira da questão da cor/raça. É só olhar pra nossa classe mesmo. Quantos de nós somos morenos ou negros?  A maioria ou a minoria? Isso é falso moralismo, isso sim!

A maioria da classe parecia ser contra a opinião do aluno. Eu não.

Se mostrarmos essa foto para 100 brasileiros e perguntarmos “você acha que as crianças da foto pertencem às classes A e B ou às classes D e E?” o que eles responderiam? Eu, imediatamente, responderia que são crianças da classe D e E. Não vejo preconceito nisso. Concordo com o aluno. Isso é uma constatação, e não um conceito pré-formulado sem conhecimento mais aprofundado (preconceito) sobre crianças morenas.

Antes de acusar alguém de estar sendo preconceituoso, que tal refletir sobre você mesmo não estar usando de falso moralismo?

Uma prova de amor

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Esta semana fui ao cinema assistir Uma prova de Amor (My sister’s keeper – 2009), dirigido por Nick Cassavetes e com Cameron Diaz, Abigail Breslin e Alec Baldwin no elenco (veja o trailer aqui).

O filme é uma adaptação do livro homônimo, de Jodi Picoult, que conta a história de uma menina com leucemia. Como nem os pais nem o irmão são compatíveis, um médico sugere que os pais concebam um outro filho, em laboratório, com as características necessárias para se tornar doador. E assim nasce Anna.

Porém, quando Anna está com 11 anos, ela processa seus pais para que eles parem de retirar órgãos e estruturas de seu corpo para doar para a irmã, que agora precisa de um rim. Esse é o ponto de partida do filme, o divisor de águas, o revelador de verdades escondidas, o desmoronador da estrutura familiar.

Não se trata apenas de uma questão de ética (ter um filho projetado em laboratório para ser doador) ou de uma decisão difícil e inusitada (processar os próprios pais). O filme desperta reflexões sobre temas mais profundos: Com 11 anos, Anna pode ser considerada dona de seu próprio corpo? Isso é mais importante do que a saúde de sua irmã? Uma mãe tem direito de abrir mão do casamento e do trabalho para viver em função de uma filha doente? Como seu marido e seus outros filhos se sentem com isso?  O filme não responde a todas essas perguntas, mas nos faz refletir sobre elas e sobre nossa vida.

Fazia tempo que um filme não me emocionava tanto.

Recomendo.

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Fábulas de Esopo

Os Dois Amiguinhos

Uma vez uma garça adotou um filhote de tigre órfão e criou o bebê junto com seu próprio filho. Os dois viraram grandes amigos, e todo dia faziam a maior bagunça, sem jamais brigar. Na realidade, eram as crianças mais boazinhas do mundo.

Um dia apareceu outra garça que era uma encrenqueira; essa garça tratou muito mal o bebê garça. O bebê garça pediu socorro, e o tigre veio correndo: num instante engoliu a encrenqueira. Só ficou um ossinho e um punhado de penas para contar a história. O tigre, que tinha sido criado num regime vegetariano, achou aquela comida diferente uma maravilha. Lambendo os bigodes, piscou o olho e disse:

– Eu te adoro, minha pequena garça!

E zás, lá se foi sua companheira de brincadeiras servir de sobremesa para o piquenique improvisado.

Moral: Nada elimina o que a natureza determina.

Moral II (by Roger): Por mais que tentemos contrariar a natureza, sempre vai ter um fdp pra nos atrapalhar.

 

Emos

Fui à Festa de Nossa Senhora Achiropita, no sábado à noite. Apesar de muito cheia, a festa estava boa. A mini-pizza e o churrasco que comi estavam muito bons, ao contrário da bomba de chocolate. Não experimentei o spaghetti nem a fogazza porque as filas eram intermináveis.

Porém, o que mais me chamou a atenção na noite do sábado foi a volta pra casa.

Entrei na estação Brigadeiro (que fica na av. Paulista) e fiquei um tanto surpreso com os adolescentes que ali estavam.

Já tinha visto bastante emos e emas, mas aqueles eram diferentes. Bem diferentes.

O que me chocou a princípio foi a questão do gênero: não consegui definir se alguns deles eram meninos ou meninas. Quase todos tinham o visual parecido: cabelo bem liso (muitos nitidamente alisados), preto ou colorido; a maioria usava boné ou touca e tinham muita maquiagem e unhas pintadas.

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Na minha adolescência, os mais “estranhos” eram os clubbers. Hoje, os emos são como clubbers evoluídos: andrógenos e ainda mais fashion.

Os emos que estavam no metrô também eram espalhafatosos. Falavam e riam alto, como se todos os usuários do metrô quisessem ouvir a conversa, que por sinal não era lá muito interessante.

Muita calma. Não estou fazendo uma crítica ao comportamento dos emos, muito pelo contrário. Como todo adolescente, eles têm necessidade de se expressar e de se reconhecer como parte de um grupo. Isso é muito bom e faz parte do desenvolvimento. Estou apenas manifestando minha surpresa com o estilo dessa nova geração, que é bem peculiar.

Pensando bem, acho que estou ficando velho. Esse negócio de achar que os adolescentes são muito estranhos está me cheirando à velhice. Os adolescentes sempre causam essa impressão nos mais velhos, não?



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